terça-feira, 6 de julho de 2021

Procuro em mim o natural
aquele impulso primitivo, irracional
Procuro em mim o agora, o involuntário agora.

Procuro nascer de dentro de mim, como nascem 
os chuchus, as sementes, os xaxins
as ervas e os capins.

Isso de deixar de ser e continuar sendo,
ainda vai nos levar além.

Como desmanchar-se sobre o próprio solo
e se nutrir dos próprios elementos
e a cada ciclo mais se elaboram as seivas, as ligninas 
mais se elaboram os ventos.

Procuro em mim, coração-floresta,
o rio que carrega tudo que resta
para jogar-me ao fluxo fluvial 
em direção ao Eu natural.


Uriel Cordeiro


4/6/21

quinta-feira, 24 de junho de 2021

Inverte tu o teu caminho
que eu o meu inverto
inventa tu os teus ventos
que eu os meus in-ventos

Inventemos nós nossos inversos
desritmados, invertidos, assustados,
diversos, cadenciados no insabido
das curvas além dos versos

Inventem vocês os invertidos caminhos,
inverso do avesso, curvas de um trilheirinho
que é o caminho inverso da busca do pergaminho

Pergaminho que não se acha nas trilhas mais pisadas,
que se encontra no caminho inverso da normal caminhada

Por isso inverto-me e invento-me 
vou com vento e com o verso,
com as mãos e facão
no caminho inverso

Abrindo na mata da poesia o caminho 
que surge num verso e me leva na direção exata
do meu verdadeiro Universo.


Uriel Cordeiro
14/6/21

terça-feira, 8 de junho de 2021

 Poemas que nascem do absurdo,
como a orelha de um velho se torna
um buraco cabeludo e a careca,
um lugar desnudo.

Poemas que nascem do absurdo,
como nascem as jabuticabas
nos troncos das árvores agarradas.

Absurdos belos, espantos alegres,
poemas são surtos de vidas entregues.

Poemas que nascem nos cantos,
brota na fresta entre a mente e o coração,
entre a Alma e a mão.

Poemas são sementes que nascem 
em qualquer lugar, de repente.

São os poemas, ou melhor, a poesia,
que antecede a tudo e a tudo veste
em versos antes que emerja no Universo.

Uriel Cordeiro

8/6/21 

quarta-feira, 19 de maio de 2021

A flor sem seu galho
instantes depois de cair,
um voo meio falho,
o que há de florir?

A luz do fim do dia
sem ter onde pintar,
pinta o alto céu

Aquelas nuvens
que ficam tão longe,
como fosse de outro mundo,
feitas por um velho pincel

Ao ar livre cai a flor
que despende do galho,
cai sobre a luz
que pinta o céu ao fundo

A flor, o céu, a luz e o galho
tudo num instante
registrou-se em mim
como num voo falho

As coisas todas se encaixando
num stop do tempo
que fez minha mente
um instante, um segundo

A poesia surge assim
tem certa magia, tem sua alegria,
perceber que a vida é isso,
um instante, um ato, 
a queda de uma flor
bem no meio de um prato.

Uriel Cordeiro


quarta-feira, 24 de março de 2021

Fiz como fazem as flores,
inevitavelmente florescem, 
fiz e ardiam no meu peito as dores,
que nas cinzas de um amor, padecem.

Uma semente em meio as cinzas
de um amor que já se desfez em pó,
uma semente que quer florescer
da própria vida, renascer e só.

Fiz como fazem as sementes,
germinam com força
mesmo sem saber o que a espera...

E é essa entrega que desejo ser
a de querer florescer e pra isso
ter de aprender a germinar
com força e vontade em qualquer lugar

Uriel Cordeiro 

10/1/2021

É simples, a gente esquece,
tem coisas que padecem...
Nem tudo é pra uma vida inteira,
muitas coisas são ligeiras...

Na vida a gente vai morrer,
basta estar, basta ser.
Se basta o que sou e o que sei,
pouco importa quando padecerei.

Viver é mesmo uma odisseia 
e odisseias acabam,
encerram mesmo antes de morrer,
e o resto é só espera...

Só que a gente esquece
que é no fundo do poço
onde tudo apodrece
e tudo acontece.



 Uriel Cordeiro 

28/12/2020



O corpo ansioso

É o reflexo de um século desajustado,
o amargo do café preto de manhã,
sair com medo de não voltar
ou de não encontrar mais o sabor da maçã.

O corpo ansioso, rói as unhas
morde os lábios, aperta até
as próprias mãos, pequenos alívios
para enganar essa sensação...

O corpo reflete os desencaixes 
de um século que voa!!!
Voa por cima de nós, de todos nós...

Sentimentos, medo, culpa, pressão,
o corpo mostra, mostra tudo...
Mesmo que a mente diga não,
sem barreiras, sem defesas, sem escudos.

O corpo ansioso, devia sempre olhar,
olhar em volta, o vento na planta,
o pássaro no céu, ao momento estar
presente, leve e respirar...


Uriel Cordeiro
9/12/19