quarta-feira, 6 de junho de 2018

As avencas no muro


Querem me dizer algo
as avencas no muro
em um beco frio
num muro de perdas

Entre as pedras
brotam verdes
as avencas

Um grande muro
que dizia com sua presença
algo insondável pela mente
coração saltou do peito

O vento no beco
soprava as avencas
que iam mais longe
nesse grande muro
de perdas

o frio, o muro
as avencas...

Tudo isso dizia algo
maior que minha
compreensão.

As avencas no muro
diziam tantas coisas
que deixei de lado
o  interesse em entender...

Vivi um instante
como fosse uma avenca
num grande muro de pedras.


Uriel Cordeiro

quarta-feira, 9 de maio de 2018

É bonito de ver a dança da chuva
de baixo dos postes da rua,
parece que cada poste tem sua própria dançarina
que baila nas noites de frio e chuva...

Dançam com o vento
balançam as saias feitas de gotas de chuva,
piscam os olhos como os relâmpagos e
cantam feitos os trovões.

Dança, dança sob o poste da rua fúnebre,
dançam uma valsa 3 por 4
enquanto observo da sacada
a rua fria, a goteira rítmica,
o escorrer das águas.

Presente completo de todas
ocasiões
onde tudo que vale é a nossa
conexão e energia
pois o tempo é unidimensional
e todos os momentos estão em um só presente
que abrange passado, presente e futuro.

Basta ligar-se e crer para ver!


Uriel Cordeiro

sábado, 24 de março de 2018

Um canto pr'um Verso


Minha voz nesses papeis,
eu e o lápis, abajur.
Meu canto vem do inverso
dos ventos que sopram do Sul.

Um canto em meu peito,
onde o verso é desfeito
sopram as mágoas
do abajur, vento forte,
vento Sul...

Nesse encanto que soou
o meu canto falou: num canto
pr'um verso, vento forte, vento sou.

Sou o verso do inverso
do vento que aqui soprou.
O meu manifesto daquilo
que


Uriel Cordeiro, sou.

quarta-feira, 14 de março de 2018

Estar vivo e reconhecer cada detalhe,
sentir como se fosse a última vez,
cada instante é o que da vida vale,
e será essa minha insensatez.

Eu estive sozinho com medo da morte,
pensando sempre em desdobrar o mundo
e ter a sorte, de viver eternamente como um poste
sem aceitar que o dia volta e a luz se apaga...

Dias a mais ou dias a menos? Viver é perder
ou viver é ganhar? Não passa tudo da ótica
de como a vida pode ser plena ou pode ser

CA

                         Ó

        TI

                                            CA

Estar vivo e reconhecer que a morte
é a eterna companheira e tudo o mais são coisas,
é a melhor das melhores sensações, só assim
para se dar valor a tudo que se tem
mesmo que tudo um dia morra
Graças a morte se tem a vida
graças a vida se tem as Graças.

E viver, por mais difícil que pareça,
ainda é de graça...


Uriel Cordeiro

domingo, 4 de fevereiro de 2018

No interior onde me criei
venho nele me criando
como as florestas, feito as espécies
como a Vida, a teia tece.

No meu Interior, no cerne do Ser,
corre o rio da mi'Alma, conturbado.
Lá no meu interior aprendi:
ser como as águas, sempre em movimento
vezes suja, vezes translucida, ora alta
ora baixa... Mas sempre à caminho do seu próprio Ser.

Vem do Interior as águas que hoje choro
está lá dentro da gente a velha parte
que nos desafia a viver e ser tal como o Mar.

Ó saudades de minhas Terras
as árvores são tortas, tal como é o meu destino.
Vão entortando os galhos da minha Vida,
vem queimada, vem ferida
vou contorcendo, como as árvores do Cerrado
sem desistir, resistindo até a última casca.

No interior encontrei os caminhos
que levam ao Interior do Ser.
Ser o que é, o que sente e pensa.

Enquanto isso, vou como as águas,
como os galhos, sempre em frente
contorcendo, resistindo e vivendo.


Uriel Cordeiro


Nos meus rascunhos eu chorei mais forte,
nesses versos prontos eu pensei demais.
Mas atrás do palco dessa poesia
senti o verso soltar-se de mim ao papel
como se fosse um corte e desesperado
escrevia para parar de cortar minha pele.

Nos rascunhos me despi, despedi,
desprendi de mim o sentimento
prendido, que me vestia a pele.
Troquei a carcaça...

Nos rascunhos você vai me encontrar
nu, desmunido, cru, vivo e sem tabus.

Nem mesmo os bons poemas
são tão poesia quanto os feios rascunhos.
Onde a poesia emerge, o Poeta cresce e a vida
recomeça, e os rascunhos vão se acumulando
na gaveta da esquerda.


Uriel Cordeiro


sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

O que vejo quando abro a janela?


Dias fechado, sob a cortina, sem luz,
meu peito em aberto, na escuridão do quarto.
Dias fechado, abro a janela: o que vejo?

Luz derramando-se sobre minhas coisas,
meus pensamentos, Sol!!!

Cegueira branca.

- Voltei.

Vi o Mundo, a cidade toda vindo,
vindo e vindo sobre as pessoas.
A gente se espremendo, sem se tocar
se odiando, precisando se amar

Encaixotando, subindo, elevador
e a dor se elevando.

- Ah, será que fecho a cortina?

- E deixo a cidade crescer sobre mim...?

Despertador nem tocou ainda,
estou estando à frente do Tempo
apressado além da pressa

Abri aquela janela, e fui abduzido por ela,
do quarto pra fora onde mi'Alma cresceu,
agora cresce sobre nós, aquilo que criamos,
que estamos fazendo para nosso ''bem-estar''.


Fechei a janela e fui dormir de novo.
É domingo, chove lá fora.


Uriel Cordeiro