sexta-feira, 12 de novembro de 2021

Olhe bem pro meio daquilo
que ai dentro apodrece,
veja a decomposição daquilo
que ai dentro padece

Perceba como tudo se decompõe
e torna-se chão,
o chão onde tudo prevalece,
o chão chamado mundo
onde a vida acontece

Esse chão que é minha vida,
um chão feito de entulhos 
das transformações e feridas

Esses entulhos intemperizados 
decompostos, mineralizados
tal como o próprio insumo
para o novo que virá

Ao novo que, daquilo que foi,
hoje se faz novamente, 
nascendo de dentro do próprio 
miolo que apodrece bem no meio da gente.


Uriel Cordeiro


4/11/2021




segunda-feira, 19 de julho de 2021

Eu vejo e sinto meu corpo em transformação
dores nas costas, no peito e na articulação 
meu peito ardendo em pensamentos pesados
que nem mais a estrutura da mente suportava

Me vejo mudando entre corpo e mente 
vejo que minha mente pode agora se notar
e intencionar energias que fluem no corpo
e o coloca em disposições diferentes

Transformações que são como sustos
pois me confundo com os sinais 
as vezes entro em paranoias e medo de morrer,
mas tudo que se transforma morre um pouco ...
Nasce um pouco também, enquanto morre...

De morte em morte, portanto, vou nascendo
vou sendo e deixando de ser, integrado na matéria
mas pronto para dela me dissipar
enquanto estou, vou no meu voo 

Percebendo a existência em suas dimensões
percebendo o agora no ato de existir 
existindo no ato, enquanto sou
e não sou mais.

De morte em morte, vou nascendo.

Uriel Cordeiro

19/7/21


 

terça-feira, 13 de julho de 2021

Eu preciso desse delírio,
não desminta essa flor branca
que nasce nos brejos, são lírios

Preciso demais acreditar 
que são perfumadas e que durarão 
para sempre nas curvas úmidas da caminhada

Eu preciso dessas flores de lírios
do brejo do meu coração, que a noite
parecem mais brilhos do que apenas floração

(Dê)lírios de afetos, flores que morrem
mas, enfeitam eternamente o inconsciente 
e alimentam meu delírio de querer existir 

Flores que abrem à noite perfumadas
e logo cedo definham à luz do Sol,
murchas ou fecundadas.

Eu preciso desse delírio, de querer encontrar
em flores o antídoto desse grande martírio. 


Uriel Cordeiro


24/6/21

terça-feira, 6 de julho de 2021

Procuro em mim o natural
aquele impulso primitivo, irracional
Procuro em mim o agora, o involuntário agora.

Procuro nascer de dentro de mim, como nascem 
os chuchus, as sementes, os xaxins
as ervas e os capins.

Isso de deixar de ser e continuar sendo,
ainda vai nos levar além.

Como desmanchar-se sobre o próprio solo
e se nutrir dos próprios elementos
e a cada ciclo mais se elaboram as seivas, as ligninas 
mais se elaboram os ventos.

Procuro em mim, coração-floresta,
o rio que carrega tudo que resta
para jogar-me ao fluxo fluvial 
em direção ao Eu natural.


Uriel Cordeiro


4/6/21

quinta-feira, 24 de junho de 2021

Inverte tu o teu caminho
que eu o meu inverto
inventa tu os teus ventos
que eu os meus in-ventos

Inventemos nós nossos inversos
desritmados, invertidos, assustados,
diversos, cadenciados no insabido
das curvas além dos versos

Inventem vocês os invertidos caminhos,
inverso do avesso, curvas de um trilheirinho
que é o caminho inverso da busca do pergaminho

Pergaminho que não se acha nas trilhas mais pisadas,
que se encontra no caminho inverso da normal caminhada

Por isso inverto-me e invento-me 
vou com vento e com o verso,
com as mãos e facão
no caminho inverso

Abrindo na mata da poesia o caminho 
que surge num verso e me leva na direção exata
do meu verdadeiro Universo.


Uriel Cordeiro
14/6/21

terça-feira, 8 de junho de 2021

 Poemas que nascem do absurdo,
como a orelha de um velho se torna
um buraco cabeludo e a careca,
um lugar desnudo.

Poemas que nascem do absurdo,
como nascem as jabuticabas
nos troncos das árvores agarradas.

Absurdos belos, espantos alegres,
poemas são surtos de vidas entregues.

Poemas que nascem nos cantos,
brota na fresta entre a mente e o coração,
entre a Alma e a mão.

Poemas são sementes que nascem 
em qualquer lugar, de repente.

São os poemas, ou melhor, a poesia,
que antecede a tudo e a tudo veste
em versos antes que emerja no Universo.

Uriel Cordeiro

8/6/21 

quarta-feira, 19 de maio de 2021

A flor sem seu galho
instantes depois de cair,
um voo meio falho,
o que há de florir?

A luz do fim do dia
sem ter onde pintar,
pinta o alto céu

Aquelas nuvens
que ficam tão longe,
como fosse de outro mundo,
feitas por um velho pincel

Ao ar livre cai a flor
que despende do galho,
cai sobre a luz
que pinta o céu ao fundo

A flor, o céu, a luz e o galho
tudo num instante
registrou-se em mim
como num voo falho

As coisas todas se encaixando
num stop do tempo
que fez minha mente
um instante, um segundo

A poesia surge assim
tem certa magia, tem sua alegria,
perceber que a vida é isso,
um instante, um ato, 
a queda de uma flor
bem no meio de um prato.

Uriel Cordeiro